Tribunais de faz-de-conta

Legalmente incluídos entre os principais órgãos de combate à corrupção no país, os tribunais de contas estão longe de justificar sua razão de ser, que é zelar pelo bom uso do dinheiro público. Esta dificuldade histórica se torna particularmente visível em ano de campanha eleitoral, quando os eleitores tendem a buscar informações mais precisas sobre a atuação de seus candidatos com experiência executiva. Se o país quer mesmo assegurar mais ética na política e na administração pública, precisa fazer com que órgãos como o Tribunal de Contas da União (TCU) e os equivalentes em diferentes Estados e municípios, assim como a Controladoria-Geral da União (CGU), possam assumir integralmente suas atribuições constitucionais. A mudança, porém, só ocorrerá se essas estruturas onerosas para os contribuintes decidirem enfrentar deformações decorrentes da vitaliciedade e da partidarização das decisões, influenciada pelo excessivo número de ex-políticos entre seus integrantes.

Alguns desses problemas remontam ao século 19, quando o marechal Floriano Peixoto não aceitou o fato de o órgão ter recusado a indicação de um parente de seu antecessor, o marechal Deodoro da Fonseca, e suspendeu suas funções de fiscalização. A característica foi reconquistada em tese com a Constituição atual, há 20 anos, mas não na prática, por razões que precisam ser enfrentadas. Como destacou o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Carlos Ayres Britto, no último Painel RBS, "os Tribunais de Contas não alcançaram aquele grau de efetividade que o Ministério Público alcançou, mas há um alento": cada vez mais a chamada Corte de Contas ganha credibilidade como instituição e assume responsabilidades institucionais. Os atos mais visíveis são aqueles em que, apesar das deficiências estruturais, essas instituições embargam obras com indícios de irregularidades, preservando o dinheiro público.

Ainda assim, o avanço é lento nos mais de 30 Tribunais de Contas em funcionamento no país - além do TCU e dos TCEs para cada Estado, algumas unidades da federação têm órgãos exclusivos para municípios, enquanto as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro têm seus próprios tribunais. Os problemas, em grande parte, se devem à predominância de ex-políticos na composição das chamadas cortes de contas. A maioria é premiada em final de carreira com o cargo vitalício, que abre a perspectiva de aposentadoria compulsória aos 70 anos com vencimentos equivalentes aos do Superior Tribunal de Justiça (STJ), apesar de a ligação do órgão ser com o Legislativo. Ainda assim, não são raros os casos de irregularidades dentro das próprias instituições criadas para combatê-las. As denúncias vão desde nepotismo cruzado - um artifício em que um conselheiro emprega o parente do outro - , até abuso no uso de diárias e mesmo a denúncia de venda de decisões para prefeituras, como ocorreu recentemente no Rio de Janeiro.

Um aspecto particularmente grave é que, na condição majoritária de ex-parlamentares e em sua grande parte sem formação superior em contabilidade, os conselheiros acabam revisando decisões tomadas pelos técnicos num número maior do que o esperado. Em tese, os tribunais poderiam - e, em muitos casos, deveriam - rejeitar prestações de contas de prefeitos, governadores e de presidentes de tribunais superiores, além de fazer pareceres a serem votados pelo Congresso no caso do presidente da República. O viés político desses órgãos, porém, faz com que dificilmente algum agente público acabe multado ou seja pedida a sua declaração de idoneidade, levando-os a agir, em muitos casos, como verdadeiros tribunais de faz-de-conta.

Seja qual for à instância da federação nas quais atuam, essas instituições deveriam se espelhar nas que realmente se mostram eficazes no cumprimento de seus papéis. É o caso - além do Ministério Público, citado pelo presidente do TSE - da Polícia Federal, entre outros órgãos, para os quais costumam pesar os fatos e não uma visão que se possa ter deles de acordo com as conveniências. Se esse tipo de atitude se presta para situações do cotidiano nas sempre delicadas relações entre o público e o privado, deveria valer acima de tudo para contas, nas quais a soma de dois mais dois será sempre quatro, e não outro número qualquer, de acordo com os interesses políticos