O EMPREGO EQUIVOCADO DO TERMO “FINANCEIRO”

Antônio Lopes de Sá

A linguagem das ciências e tecnologias cria uma terminologia específica, ou seja, um conjunto de conceitos e são estes os que consagram o valor intelectual de um conhecimento.

A confusão estabelecida no afã de expressar idéias, todavia, constituiu-se em uma fase na evolução do saber que culminou com a reação e intervenção de grandes gênios como Lavoisier na Química Moderna e Einstein perante a Física Moderna.

No campo contábil a mesma coisa está sucedendo de há muito em razão da influência anglo-saxônia, deformando o vernáculo e expressões de origem latina.

As péssimas traduções de textos da normalização que provem dos Estados Unidos e dos órgãos submissos a tal cultura têm conseguido adulterar idéias e perverter conceitos consagrados no tempo com sério prejuízo para a formação de juízos.

Há cerca de trinta anos a lei brasileira das sociedades por ações denominou como “Financeiras”, as Demonstrações Contábeis, em virtude de ter sido uma cópia, nesta questão, dos textos norte-americanos que usam a expressão “Financial” para o caso em referência.

A violação das razões conceituais tradicionais no mundo latino, todavia, não ficaram por ai.

O termo “financeiro” passou a ser empregado no lugar de “patrimonial”, “contábil” (que é o patrimonial) e assim está nas traduções equivocadas das normas que hoje se dizem “internacionais”.

Ocorre que uma séria contradição se opera nessa questão no que tange a concepção originária do conceito.

“Financeiro”, no bom português é o que se refere ao dinheiro apenas.

O termo teve sua origem na França, no século XIII (admite-se na segunda metade deste) e foi criado para expressar “pagamento” (como existem provas relativas ao ano de 1283), e, por extensão, no século XIV também passou a ser adotado como “fonte de renda” daí derivando-se por ampliação, no século XVII, como “Receitas do Estado”'.

As razões que alicerçaram a consagração do termo estiveram ligadas ao “vencimento de obrigações que se devem pagar” ou “vencimento de rendas ou direitos que se devem receber”.

A proveniência, como se tratava de “prazo” veio do verbo francês “finir” de onde provem “finer” e por conseqüência, em nosso idioma como galicismo: “finanças” e “financeiro”.

A adoção do termo foi feita em várias nações como a Itália, Espanha e paises de língua espanhola, Alemanha etc.

Em nosso idioma “financeiro” continuou sendo o que é relativo à “recebimento e pagamento em dinheiro” e assim na doutrina de melhor qualidade se consagrou.

Como no patrimônio nem tudo é “dinheiro”, embora neste possa converter-se, firmou-se o conceito de que “financeiro” é apenas uma parte do conjunto da riqueza que se liga a circulação monetária quase sempre em prazos previstos ou fixados.

Assim os clássicos da doutrina no Brasil e nos paises latinos seguiram adotando.

Logo, confundir patrimônio com financeiro é um erro em matéria conceitual que está comprometendo o linguajar científico e tecnológico, este que é soberania da profissão.