ENTREVISTA DA SEMANA
Adeildo Osório de Oliveira
CRCBA: O senhor foi presidente do CRCBA por duas ocasiões (1990/1993 e 1999/2001), em momentos distintos do cenário profissional contábil no país. Hoje, na sua visão, quais são os principais desafios que o profissional da Contabilidade deve superar para alcançar o sucesso?
Entre o último ano da minha gestão e os dias atuais, já se vão 15 anos, o que, dentro de um conceito sociológico, é o ciclo de uma geração. Neste período, o mundo passou por inúmeras transformações, e hoje o Brasil está muito mais globalizado, passando, com Lei nº 11.638/2007, a adotar o padrão mundial de contabilidade chamado de IFRS (International Financial Reporting Standards), emitidas pelo IASB (International Accounting Standards Board), bem como as normas internacionais de auditoria e da contabilidade pública, derivadas da IFAC (International Federation of Acoountants), o que muda completamente a forma de concepção e filosofia do fazer contábil nestas três esferas. Na contabilidade societária nasce a obediência da essência sobre a forma, do “code law” para o “common law”, um novo olhar que vai demandar dos profissionais da contabilidade e da academia um aprendizado sobre os novos tempos. Na contabilidade pública, cuja convergência integral das regras internacionais vai até 2021, não é diferente, a adoção das normas internacionais, fez com o que o Balanço Geral da União, apresentasse um patrimônio líquido negativo em 2015 de R$ 1,413 trilhões, em função da mudança da contabilização dos créditos tributários em litígio. Se a União fosse uma entidade privada dir-se-ia que estava em solução de continuidade.
CRCBA: Enquanto presidente da Academia Baiana de Ciências Contábeis – ABACICON, comente como anda o processo de produção acadêmica de nosso estado na área contábil.
A Academia Baiana Ciências Contábeis, composta de várias personalidades de notório saber, não só contábil, mas também de outras áreas do conhecimento humano, quase todos os mestres em contabilidade e muitos doutores, foi recém-criada, acabamos de obter sua legalização agora, portanto, em face da sua primeira infância, ainda não existe produção cientifica em seu âmbito. Gostaria de ressaltar, entretanto, que a Bahia, desde a edição do seu congresso brasileiro de contabilidade, ocorrido em 1992, teve um enorme progresso na área de produção de trabalhos científicos apresentados em vários conclaves de contabilidade, não só no Brasil, mas também no exterior. Fator importante para este progresso passou a serem os trabalhos de conclusão dos cursos de ciências contábeis. No sentido de reconhecer e distinguir os talentos dos jovens profissionais da área contábil tivemos a ideia de criar, na nossa gestão de 2001 o prêmio jovem cientista da contabilidade, denominado de prêmio “Prof. Wilson Thomé Sardinha”, que vem sendo outorgado ao melhor trabalho, no seio das universidades e das várias instituições de ensino dos cursos de ciências contábeis.
CRCBA: Quais são os projetos da ABACICON nesse sentido?
No âmbito do plano de trabalho da Academia, pretendemos estimular a produção cientifica através de artigos, ensaios, cursos e discussões filosóficas da profissão.
CRCBA: Recentemente, foi publicado pelo senhor um artigo sobre a Lei de Repatriação de Recursos (Lei nº 13.254/16), num momento em que o país carece de maior arrecadação de recursos e também sofre com vários casos de evasão de divisas. O senhor enxerga a criação dessa Lei como uma oportunidade de regularizar a situação desses contribuintes ou como uma flexibilização excessiva das regras fiscais do país?
A edição das normas do RERCT, (Regime Especial de Regularização Cambial e Tributária) a chamada lei de repatriação de recursos, não é um caso isolado do Brasil, vários países do mundo usaram de tal procedimento, pode-se destacar, entre outros, Itália, Argentina, Turquia, México, Chile, Espanha, Alemanha e Colômbia, tal atitude deriva de conduta da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), visando ao combate ao crime organizado, bem como oferecer aos contribuintes a oportunidade de regularizar sua situação fiscal, com perdão, ou remissão de eventuais crimes de sonegação, trazendo ainda, ao poder tributante a enorme chance de aumentar sua arrecadação. No caso especifico do Brasil, é um momento singular, em face de crise que o país vem atravessando. Estima-se que tal movimento venha trazer uma arrecadação R$ 50 bilhões, ou mais, em face da estimativa de R$ 200 bilhões, ou mais, ilegalmente existente no exterior. Tal arrecadação será benéfica não só para a União, mas também para os Estados e Municípios em face da participação destes entes na arrecadação tributária da União.
CRCBA: Como sócio fundador de uma reconhecida empresa do ramo de auditoria, como o senhor avalia o mercado de trabalho nesta área e como se capacitar para ela?
Segundo da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o Brasil tem atualmente 407 auditores, sendo 50 auditores pessoas físicas e 357 auditores pessoas jurídicas, tendo 620 companhias de capital aberto e 61 empresas incentivadas. No campo da auditoria o mercado é dominado substancialmente pelas quatro grandes firmas de auditoria que atuam nos cinco continentes e em vários países do mundo, é um mercado muito concentrado, não só no Brasil, mas em vários outros países. Existe, entretanto, espaço para a firmas menores, que atuam em um mercado onde as firmas multi nacionais de auditoria não tem requerimento. Para atuar neste mercado é necessário conhecer e adotar as normas de auditoria, que agora estão em linha com o padrão internacional, obedecer às regras fixadas pelo Conselho Federal de Contabilidade (CFC) quanto ao exame do Cadastro Nacional dos Auditores Independentes (CNAI) e ao cumprimento do programa de educação profissional continuada (PEPC), normatizado pela NBC PG 12, (Norma Brasileira de Contabilidade Profissional Geral) bem como as orientações do IBRACON, (Instituto dos Auditores Independentes do Brasil).
CRCBA: Na última edição do Exame de Suficiência, realizada em abril deste ano, o índice de aprovação obtido no estado da Bahia foi de 29%. A quê o senhor atribui esse índice relativamente baixo?
Deve ser atribuído, primeiramente a qualidade do ensino em nossas instituições. Realmente é uma situação preocupante, visto que a média de aprovação nacional no exame, tomando-se como marco referencial o período de 2011 a 2015, está em torno de 43,48%.
CRCBA: Existe alguma forma de interação entre a Fundação Brasileira de Contabilidade, o Sistema CFC-CRC’s e Instituições de Ensino Superior no sentido de se levantar as principais deficiências no ensino de Ciências Contábeis para melhorar o aproveitamento dos bacharéis nos Exames?
A Fundação Brasileira de Contabilidade, da qual sou o Presidente do Conselho Curador, tem sido responsável pela elaboração das provas e execução dos exames. Não consta nos estatutos da FBC esta prerrogativa de levantamento e apuração das deficiências nos resultados dos referidos exames.
CRCBA: Como coordenador de aplicação do Exame de Suficiência na Bahia, qual a dica que o senhor gostaria de passar para os examinandos de nosso estado?
Que estudem com afinco, fora do ambiente acadêmico, estudem com muita antecedência, não adianta estudar próximo da realização do exame. Os candidatos devem tentar resolver as provas já realizadas, pois aí seguramente terão sucesso, ainda que a formação acadêmica tenha deixado a desejar.
CRCBA: Considerando sua vasta experiência na área contábil, sobretudo com uma atuação destacada de muitos anos na profissão, aponte para os nossos leitores as áreas de atuação que o senhor julga mais promissoras para um futuro próximo.
Existem várias áreas de atuação promissora, como a auditoria, a perícia e a própria contabilidade, entretanto, pode-se destacar a imersão pelo conhecimento da área tributária, que é muito complexa, sobre tudo, no seu planejamento lícito, evitando-se a evasão fiscal, bem como na elaboração do contencioso administrativo, que pode ser feito pelos Contadores, não sendo prerrogativa exclusiva dos Advogados.
CRCBA: Deixe uma mensagem para a classe contábil baiana.
Quero dizer que a contabilidade, como ciência social, tempestivamente apurada, com o objetivo de trazer para a sociedade e o poder tributante, as informações econômicas de comparabilidade, é um instrumento de grande valia. A contabilidade não é algo simples, pois ela traduz as múltiplas e complexas relações resultante das transações das entidades, apuradas, atualmente, em um processo de julgamento. A contabilidade é uma ciência milenar e vem passando por grandes transformações.
Agradeço a todos do Conselho Regional de Contabilidade do Estado da Bahia, funcionários e conselheiros, pela oportunidade de comunicação com a sociedade contábil baiana, especialmente ao seu Presidente, Antônio Carlos Nogueira Cerqueira, com quem, faz algum tempo, estamos em luta, em uma luta não para derrotar qualquer inimigo, mas uma luta pelo bem da nossa profissão.
Que Deus conceda a todo o amor e paz. |